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sexta-feira, 22 de julho de 2011

Apologia à dúvida

Se tudo o que vemos e entendemos não passa de interpretação, podemos concluir que ter certezas não é muito inteligente.

O entendimento que temos da realidade que nos cerca é produto de representação.

Comecemos por Deus. Ninguém jamais viu a Deus, já dizia o evangelista João. Deus só pode ser concebido por meio de representação, de analogia, de comparação, de simbologia. É por isso tudo o que “sabemos” a respeito de Deus nada mais é do que o produto de nossa imaginação baseado em alguma experiência que chamamos pelo nome de Deus. O fato é que mesmo que não creiamos em nenhuma divindade, fatalmente estaremos optando por alguma crença, posto que também a não existência de Deus é improvável. Mas se concebemos algum Deus teremos de lançar mão de um modelo que nos sirva de comparação. Os cristãos fizeram a opção por Jesus, como símbolo (representação) de Deus. As religiões afro-brasileiras têm seu panteão de divindades, os orixás, e tem por Deus o Pai Olorum. Os mulçumanos tem Alá. Os hinduístas tem Shiva e centenas de outras divindades. Logo, uma convicção absoluta de Deus é idiotice e uma convicção absoluta de não-Deus também é imbecilidade. Tudo não passa de um caminho escolhido, de uma escolha de crença.

Crença não é convicção, não é certeza. Acreditar é dar crédito a. Como numa operação financeira em que o banco ao emprestar dinheiro ao seu cliente está lhe concedendo um crédito.
Mesmo a matemática, embora lide com resultados exatos é formada por representação. Os números nada mais são que representação do que chamamos de quantidade. A representação faz parte de qualquer aspecto da vida humana. Representamos sons e comunicação pela linguagem. Representamos a vida nas manifestações artísticas. Shopenhauer já falava do mundo como vontade de representação. Não há problema em representar, em simbolizar, em imaginar. O problema está em nossa convicção sobre a nossa representação. A certeza de nossa interpretação é perigosa porque nos cega para o fato de outros possuem interpretações diferentes e também legítimas

A meu ver, toda ortodoxia e dogmatização fundamentalistas são barreiras para um pensamento inteligente. Portanto, eu sugiro que toda convicção e certeza seja questionada.

Algumas áreas onde nossa percepção de realidade dogmatizada e que precisamos reconsiderar apenas como percepções e não como a verdade última:

- Religião. Há milhares. Não pode ser possível que apenas uma seja a correta. Cada um faz a sua opção por um caminho.

- Moral. Certo e errado mudam conforme localização geográfica, cultura, tempo, contexto, etc.

- Ética. É preciso entender a ética dentro do contexto da situação. Afinal, se diz que até bandido tem sua “ética”.

- Família. O modelo familiar mudou, hoje temos uma pluralidade de modelos com os casais homoafetivos, os divorciados, filhos adotados, etc.

Enfim, todas as áreas da vida humana estão marcadas pela representação e por isso podem ser repensadas e não precisam ser absolutizadas. É nossa necessidade de dar sentido que faz com que nos apegamos a convicções sobre modelos e sistemas que nada mais são do que a maneira como queremos significar as coisas pra nós. Ou seja, queremos que a vida e o mundo façam sentido.

O caminho da maturidade a meu ver percorre pela percepção do fato de que não sabemos o sentido ou se a vida tem algum sentido. E nesse caso, ou convivemos com esse vazio de sentido, ou damos um sentido para ela, ou ainda optamos por um caminho que poderá ser o de alguma religião ou crença. Fato é que, quer optemos por um caminho de ter sentido ou não ter sentido conviveremos com a dúvida se encontramos a verdade ou não. Portanto a resposta adequada a como conviver com isso, é a humildade no sentido de “eu não sei o sentido da vida, mas a minha opção é essa tal e tal”. E a opção de outro ser humano deverá ser respeitada. Essa opção trilhará pelo caminho da esperança e da fé. Em outras palavras, podemos dizer que todo ser humano é provido de fé, de esperança. Podemos então concluir que ter fé e esperança é humano, ter convicções e certezas é infantilidade.

Porém respeitar a opinião ou o caminho do outro quanto ao sentido, não quer dizer que não possamos fazer questionamentos. Repito o caminho da maturidade não é ter certeza, mas é justamente a dúvida e a consciência de que o significado escolhido é apenas mais “um” e que, portanto sempre poderá ser desconstruído e novos significados poderão ser construídos. Parece loucura, para alguns. E talvez eu deva dizer que nem todos suportarão esse tipo de pensamento e vão se trancar nos seus próprios significados. Já dizia Sócrates: “Só sei que nada sei."
Autor: André Luiz é estudante de Teologia e pós-graduando em Filosofia. É também palestrante da Ruah.

terça-feira, 29 de março de 2011

Deus Existe?

As pessoas tem me perguntado se eu creio na existência de Deus. Em tese, parece uma pergunta de resposta óbvia para estudante de teologia. Isso porque sempre que se fala em teologia, não se tem a dimensão exata do que significa esta disciplina, e acabam sempre associando a coisa de padre e pastor. É verdade que no Brasil o que mais existem são os cursinhos confessionais e fundamentalistas. Mas existem formas mais "científicas", se é que podemos usar esse termo, de encarar a teologia. Não no sentido de ciência como experimentação do objeto. Mas no sentido de metodologia. Estou falando de teologia no sentido da teologia antropológica por exemplo, da histórica, filosófica, etc. Enfim, a chamada teologia acadêmica que dialoga com todas as demais ciências e não considera os textos sagrados de forma literal.

Mas, voltando a pergunta que sempre me fazem. Eu tenho respondido que a minha esperança é que Deus possa existir. Mesmo assim, não estou pensando num ser. Estou pensando numa possibilidade e numa idéia que tenho a respeito de Deus. Até porque é isso mesmo. Deus até onde o conhecemos é apenas uma idéia. E só o concebemos através de analogias, metáforas com as coisas conhecidas do mundo mesmo. Então a idéia que tenho é que o que chamamos de Deus, na "verdade" seja o amor. Ou o que chamamos de amor, na "verdade" seja Deus.

Explico melhor. Tenho uma visão um tanto trágica e pessimista a respeito da humanidade. É mais difícil encontrarmos bondade e solidariedade no ser humano. É mais raro. O normal é o egoísmo, a maldade, a ambição, a violência, etc. Talvez por uma questão de sobrevivência. O amor é raro. E por ser raro, às vezes parece até divino. E daí as pessoas chamam isso de Deus. Ou seja, para mim permanece a pergunta: Deus é amor ou o Amor é Deus? A resposta tanto faz, pois não podemos provar existência ou inexistência de Deus.

Então, eu não tenho uma resposta pronta para dizer se creio ou não na existência de Deus. Eu creio no amor. Creio que o amor é salvação da humanidade. Nasci na tradição cristã, que simboliza o amor por meio de Jesus. Jesus é símbolo de Deus, como escreveu o teólogo católico Roger Haight. Portanto, acho que falar sobre a existência ou não de Deus, é perder tempo. Não chegaremos a conclusão alguma. Mas crer no amor é ter esperança, esperança na humanidade. E isso não se limita a Jesus ou o deus de qualquer outra religião, isso tem a ver com toda a humanidade e toda forma de expressar e viver o amor.